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Gasto com concentrado na fazenda: impacto econômico e estratégias de redução visando maior rentabilidade

Na atividade leiteira, como em qualquer outra, nem sempre o ótimo produtivo equivale ao ótimo econômico. Mais importante que maximizar a produtividade por animal e aumentar o volume de leite produzido é ganhar mais dinheiro com a atividade, o que não necessariamente significa alcançar níveis de produção mais elevados.

 

Na busca pela máxima eficiência, devemos procurar manter equilibrados os custos e as receitas. Com esse artigo, vamos compreender a importância do equilíbrio dos custos com concentrado e obter dicas de como reduzir as despesas de forma eficiente.

 

Um animal precisa se alimentar primeiramente para atender sua exigência de mantença, que corresponde ao que os animais necessitam para manutenção dos processos vitais. Suprida a exigência de mantença, a próxima exigência a ser atendida é para a produção de leite, caso este animal esteja em lactação. Atendida a exigência de produção, o animal começará a ganhar peso, que poderá ser avaliado de forma subjetiva via escore de condição corporal. Dessa forma, estima-se que uma vaca que começa a depositar gordura já tenha atendido as exigências para mantença e produção de leite, sendo essa avaliação essencial dentro da fazenda.

 

Todas as medidas que visam equilíbrio dos custos, sem afetar o desempenho dos animais, são bem-vindas. No que se refere à alimentação, daremos um enfoque maior aos alimentos concentrados, pois, em geral, representam o maior custo da atividade leiteira. Analisando o banco de dados da empresa Labor Rural, temos que as fazendas mais rentáveis comprometem até 35% da renda bruta da atividade com concentrado. Vale ressaltar que o ideal, para as propriedades com custo maior, não é abaixar desenfreadamente os gastos com concentrado, e, sim, equilibrar essa despesa. Equilibrar o gasto com concentrado, dentro de uma propriedade leiteira, significa gastar de forma mais eficiente, fornecendo aos animais a quantidade necessária do insumo, visando o ótimo econômico de sua utilização, ou seja, o lucro máximo, sempre atentando aos eventuais impactos na produtividade dos animais em lactação.

 

Para compreender o comportamento dos indicadores econômicos, frente à variação do gasto com concentrado, foi realizada uma simulação, considerando uma fazenda modal do banco de dados da empresa Labor Rural, com variação apenas o custo unitário do concentrado. Para refletir sobre os resultados da simulação, vamos analisar o gráfico abaixo, onde o eixo horizontal representa o indicador Gasto com concentrado sobre a Renda Bruta da atividade (%) e o eixo vertical, o percentual dos indicadores analisados. Utilizamos, para essa análise, a série histórica de preço bruto do leite, no período de janeiro/2005 a dezembro/2019, do CEPEA/ESALQ-USP.

 

Gráfico 1 – Influência da variação do percentual do gasto com concentrado sobre a renda bruta da atividade nos indicadores econômicos.

 

 

Fonte: Labor Rural. Dados econômicos corrigidos pelo IGP-DI de fevereiro/2020.

 

Observe que, à medida que aumenta o percentual de gasto com concentrado, em relação à renda bruta da atividade, mantendo inalterados todos os demais custos e a produtividade da fazenda, menor será a lucratividade, que representa o percentual que o produtor consegue suportar em aumento do custo de produção ou redução do preço do leite, mantendo todo o resto constante. Da mesma forma, menor será a rentabilidade expressa pelo indicador Taxa de Remuneração do Capital com Terra (%). Ambos os comportamentos de decréscimo ocorrem pela expressiva redução das margens da fazenda. Se as margens são menores, o produtor possui menos fôlego para suportar crises e a atratividade do negócio é reduzida.

 

Com a redução das margens, que gera menor rentabilidade e menor lucratividade, há um aumento expressivo do risco, que representa a probabilidade de a propriedade não conseguir ganhar dinheiro, ou seja, de operar com prejuízos. Para cada ponto percentual de aumento do gasto com concentrado, em relação à renda bruta da atividade, mantendo todo o resto constante, há um aumento de quase três pontos percentuais no risco. Significativo, não? Veremos, abaixo, algumas dicas que ajudarão a equilibrar esses gastos, evitando aumento do risco, redução da lucratividade e da rentabilidade, e, portanto, auxiliando você, produtor, a ganhar mais dinheiro com o seu negócio.

 

Para equilibrar os gastos com concentrado, dentro de uma propriedade leiteira, não basta apenas levar em consideração o preço do milho, do farelo de soja, do núcleo ou do concentrado comercial, por exemplo. Obviamente o preço desses insumos é importante, porém, além disso, há outros pontos a que devemos estar atentos, sobretudo no que se refere a pontos que conseguimos controlar da porteira para dentro. São estes:

 

Realizar a separação dos animais em lotes. Essa separação de lotes deve ser o mais homogênea possível, para garantir que todos os animais recebam uma dieta próxima da sua exigência, sem excessos ou déficits.

 

Optar por vacas mais produtivas. Independente da produtividade das vacas, a energia de mantença necessária para manter as funções vitais do animal, normalmente, será semelhante, em função do seu peso corporal, tamanho, grau de sangue e metabolismo como um todo. Portanto, quanto mais produtiva essa vaca for, maior será a diluição da sua energia de mantença, considerando animais com características corporais semelhantes.

 

Fornecer uma dieta bem balanceada. Como vimos, é essencial atender às exigências dos animais. Porém, uma dieta desbalanceada pode trazer problemas para o produtor, como, por exemplo, a acidose. Animais com acidose reduzem o consumo de matéria seca e, consequentemente, não suprem suas necessidades, comprometendo a produção, a sanidade e a reprodução.

 

Avaliar as opções de uso de concentrado comercial e mistura realizada na fazenda.  Ambas opções podem possuir prós e contras para a sua fazenda. Então as avalie técnica e economicamente essas opções.

 

Realizar compras estratégicas. Essas compras visam conseguir melhores preços de insumos e, por isso, devem ser antecipadas ou realizadas de forma coletiva. O melhor momento para compra estratégica é a época de colheita da soja e do milho, quando estes elementos apresentam preços mais baixos. A soja apresenta menor preço médio histórico nos meses de fevereiro, março e abril e o milho, nos meses de junho, julho e agosto.

 

Optar por um volumoso de boa qualidade. Quanto melhor a qualidade nutricional e a digestibilidade do volumoso, menor quantidade de concentrado será necessária para que o animal atenda sua demanda nutricional. Segundo o benchmark, as fazendas mais rentáveis comprometem até 10% da renda bruta da atividade com alimentos volumosos, ou seja, menos de um terço da referência para alimentos concentrados no custo de produção. Os alimentos volumosos, além de serem uma fonte de alimento de baixo custo, são essenciais na dieta de animais ruminantes.

 

Substituir os ingredientes da dieta. A utilização de subprodutos na dieta é feita para substituir os alimentos mais tradicionais, como milho e soja, quando o preço desses insumos está elevado. Essa substituição, se realizada corretamente considerando questões técnicas e econômicas, pode representar uma grande economia de custos na propriedade e, além disso, os subprodutos podem possuir nutrientes especiais ou complementares aos já existentes na formulação, permitindo um ajuste fino da dieta.

 

Ter cuidado com o uso de aditivos sem comprovação de eficácia técnica. Apesar de alguns aditivos serem fundamentais e possuírem uma boa relação custo-benefício, outros não são sustentados por uma ciência sólida. Com isso, poderão apenas aumentar o custo do quilo de concentrado, sem apresentar benefício para o desempenho animal.

 

Reduzir as perdas diretas e indiretas dos alimentos estocados dentro da propriedade. Se o armazenamento dos insumos for realizado de forma incorreta poderá favorecer a proliferação de fungos, que produzem micotoxinas danosas à sanidade dos animais. Estas micotoxinas causam redução do desempenho, desordens reprodutivas, abortos e imunossupressão, além de proporcionarem uma perda expressiva de matéria seca e do valor nutricional do alimento. Podem ocorrer, também, perdas de alimentos devido às falhas na previsão de consumo, quando essa previsão é superestimada e sobra muito alimento no cocho.

 

Como as despesas com concentrado, normalmente, correspondem ao principal componente de custo da fazenda leiteira, para garantir que a atividade seja rentável é essencial estarmos atentos a esses gastos, sem perder de vista a produtividade do rebanho, que é um dos pilares, na busca por maior eficiência. Portanto, caro produtor, junto com um consultor especializado, na parte técnica e gerencial, fique sempre atento ao preço dos insumos, às formulações das dietas, ao correto arraçoamento e as estratégias nutricionais. Isso contribuirá para operar com fluxo de caixa positivo, menor risco econômico e maior rentabilidade na atividade. Dessa forma, produzirá mais e melhor com menos, ou seja, será mais eficiente em sua propriedade.

 

Produtor, seus custos com concentrado estão equilibrados? Fique atento!

 

 

 

 

 

 

 

William Mariano – Consultor Técnico da Labor Rural

 

 

 

 

 

Mariana Figueiredo – Estagiária da Labor Rural