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Eucaliptocultura em Ipatinga (MG) é discutida em encontro de produtores

Produtores da eucaliptocultura em Ipatinga, pertencente à mesorregião do Vale do Rio Doce, no estado de Minas Gerais, se reuniram no dia 27 de abril de 2017 para levantamento dos custos de produção da atividade de eucaliptocultura da propriedade modal da região para o projeto Campo Futuro.

 

Esta é uma iniciativa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e da Labor Rural Serviços e Empreendimentos, empresa graduada pela Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da UFV e residente do Parque Tecnológico de Viçosa (tecnoParq). Para a realização do trabalho, contou-se com o apoio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (FAEMG) e da Associação dos municípios do Vale do Aço (AMVA).

 

Participaram do painel produtores da eucaliptocultura em Ipatinga e prestadores de serviços. De acordo com os participantes, a propriedade típica da região (modal) possui em média 100 hectares. Destes, 60 hectares são destinados à eucaliptocultura, responsável por 80% da receita gerada na propriedade. Assim, a atividade é considerada, portanto, como a principal.

 

As áreas de Reserva Legal e APP ocupam 20 hectares. Estradas e benfeitorias, 10 hectares. Já as atividades de pecuária de corte e leite ocupam 10 hectares. O que representa 20% de toda a renda anual da propriedade.

Na tabela 1, seguem as características principais da fazenda modal da região de Ipatinga:

 

Tabela 1: Propriedade modal produtora de eucalipto da região de Ipatinga/MG

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O ciclo da Eucaliptocultura em Ipatinga

A eucaliptocultura em Ipatinga é conduzida em dois ciclos de 6 anos cada, sendo o ano de implantação o ano 0, os anos de manutenção do primeiro ciclo os anos de 1 a 5 e os anos de manutenção do segundo ciclo de 6 a 11.

 

É comum na região todas as operações de implantação (realizadas no ano 0) serem terceirizadas ao custo de R$ 2.667,00 por hectare. No fluxograma 1, seguem descritas todas as atividades realizadas pelo serviço terceirizado no ano 0, ano de implantação da floresta:

 

Fluxograma 1: descrição das atividades terceirizadas no ano de implantação

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Os insumos necessários para realizar todas as atividades descritas acima são pagos pelo produtor, em que, no total, são gastos R$ 2.913,22 por hectare. Portanto, no ano de implantação, o produtor investe R$ 5.580,22 por hectare, gastos com o serviço terceirizado e com a compra de insumos no ano 0.

 

Todas as atividades de manutenções (realizadas do ano 1 ao ano 5) são realizadas por mão de obra contratada. No fluxograma 2, seguem descritas todas as atividades realizadas nos anos de manutenção.

 

Fluxograma 2: descrição das atividades de manutenção

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A compra dos insumos necessários nos anos de manutenção, assim como a mão de obra contratada, é paga pelo produtor, em que, no total, são gastos R$ 1.953,63 por hectare.

 

Além dos custos com implantação e manutenções, há também os gastos gerais do ano 0 ao ano 5, como gasolina e ITR, que totalizam R$ 435,00 por hectare.

 

Logo, o investimento total (R$/hectare) para formar a floresta (ano 0 ao ano 5) é de R$ 7.968,85, conforme está descrito no fluxograma 3.

 

Fluxograma 3: descrição dos gastos totais (R$/hectare) para formar a floresta

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Por que devemos calcular o custo da Eucaliptocultura em Ipatinga?

Calcular este custo de formação da eucaliptocultura em Ipatinga é de extrema importância para o produtor. Através dele, é calculado o custo de amortização anual da floresta. No caso dos produtores da eucaliptocultura em Ipatinga, como cultivam a floresta em dois ciclos de 6 anos cada, totalizando 12 anos de cultivo, a amortização do investimento é realizada em 12 anos.

 

Com a realização das atividades descritas, a produtividade alcançada na região ao fim do ano 5 (1º ciclo) é de 30 metros cúbicos por hectare e de 21 metros cúbicos por hectare ao fim do ano 11 (2º ciclo). Durante a coleta das informações, os participantes relataram que os plantios são realizados em áreas de baixa fertilidade e de relevo acidentado.

 

Na adubação de plantio são aplicados 167 quilos por hectare do fertilizante formulado 06-10-10, quantidade muito abaixo do praticado em regiões que apresentam produtividades satisfatórias, sobretudo a dosagem de fósforo, essencial para o desenvolvimento radicular da planta. A adubação de plantio praticada na região é insuficiente para atender plenamente as necessidades nutricionais para o desenvolvimento e a expressão do potencial produtivo das plantas, comprometendo, assim, uma maior produtividade.

 

Sugere-se que os produtores invistam em um melhor manejo nutricional, como, por exemplo, aumentar os níveis de NPK das adubações, uma vez que nem sempre o solo é capaz de fornecer todos os nutrientes de que a planta precisa. Doses corretas de NPK evitam o déficit nutricional e permitem um crescimento adequado das plantas tanto em altura quanto em diâmetro, além de otimizarem o vigor das plantas, conferindo-lhes maior resistência a doenças e uma maior expressão do potencial produtivo. Já a adubação de cobertura é feita com o formulado 06-10-29, sendo duas aplicações de 500 quilos por hectare cada, quantidades satisfatórias.

 

Gesso agrícola e calcário melhoram condições do solo

Durante a coleta de informações, foi visto que na região não é realizada a aplicação de gesso agrícola e calcário na etapa de preparo do solo devido à declividade do relevo. Na busca por uma maior produtividade, sugere-se também que os produtores tracem estratégias para viabilizar a aplicação do calcário e do gesso agrícola, visando melhorar as condições do solo da subsuperfície, pois, entre os nutrientes necessários, a planta de eucalipto demanda o cálcio, que é fornecido basicamente via calcário e gesso.

 

O gesso apresenta boa solubilidade e conduz o cálcio para camadas mais profundas (as raízes do eucalipto exploram perfis de solo profundos), além de reduzir o efeito do alumínio presente no solo (os participantes relataram que nas áreas de plantio há considerável infestação de samambaia, planta indicadora de solos ácidos), o que permite que as raízes se aprofundem mais, dando condições para a planta suportar melhor eventuais situações de estresse, como veranicos etc.

 

Outro fato é que na região não se utiliza gel para hidratação das mudas na etapa do plantio. Isso ocorre, pois, segundo os participantes, as experiências com o uso do gel não foram satisfatórias. O clima na região é tropical, e o regime de chuvas em determinadas épocas do ano não atende plenamente a demanda hídrica das plantas, o que reflete diretamente na produtividade alcançada. Recomenda-se que os produtores busquem orientação quanto à forma correta da utilização do gel e avaliem a viabilidade de utilização.

 

Entenda como é calculado o custo da Eucaliptocultura em Ipatinga

Além do investimento de R$ 7.968,85 para formar a floresta, a metodologia de Cálculo de Custo do Campo Futuro contempla três centros de custos:

 

  • O custo operacional efetivo: composto pelas despesas geradas após a formação da floresta;

 

  • O custo operacional total de produção: composto pelo custo operacional efetivo, somado ao custo de depreciação (máquinas, implementos, benfeitorias) e à amortização anual do eucaliptal – reserva monetária que o produtor necessita fazer para que, ao fim da vida útil da floresta, possa formar outra igual (viabilizando sua permanência na atividade) e o custo da mão de obra familiar (pró-labore);

 

  • O custo total de produção: composto pelo custo operacional total somado à remuneração de 6% a.a. do capital médio empatado (em floresta, máquinas, equipamentos, benfeitorias e, no caso da metodologia do Campo Futuro, remuneração da terra através do valor de arrendamento da região no valor de R$ 420,00 por hectare, segundo participantes).

As composições de cada um dos centros de custos por hectare estão listadas no fluxograma 4.

 

Fluxograma 4: Composição do custo operacional efetivo, custo operacional total e custo total (R$/hectare)

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Chegado ao fim do ano 5, toda a produção do primeiro ciclo é entregue ao comprador, ou seja, o produtor é quem arca com o corte e o transporte. Na eucaliptocultura em Ipatinga, o custo para corte da madeira é de R$ 34,00/m3, e o custo para transporte é de R$ 27,00/m3, resultando em um custo com colheita de R$ 61,00/m3. No dia da realização do Painel, o preço médio de venda praticado na região era de R$ 65,00/m3, ou seja, somente com a colheita o produtor compromete 94% da renda obtida com a venda da madeira. Nessas condições, os produtores de Ipatinga, ao final do ciclo, operam com as margens de lucro por hectare descritos no fluxograma 5.

 

Fluxograma 5: Margem Bruta, Margem Líquida e Lucro por Hectare, obtidos ao final do ciclo:

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Eucaliptocultura em Ipatinga não é atrativa economicamente

A margem bruta positiva mostra que, com a renda obtida na venda da madeira, os produtores de Ipatinga conseguem pagar os desembolsos obtidos após a formação da floresta. Operar com Margem Bruta positiva é essencial, pois garante, no curto prazo, a permanência do produtor na atividade.

 

A Margem Líquida negativa mostra que, com a renda obtida, os produtores não conseguem pagar os custos operacionais totais de produção.  Trabalhando, assim, com inviabilidade econômica. Além disso, os dados revelam que, no médio prazo, caso as condições de produção atual se mantenham, os produtores da eucaliptocultura em Ipatinga não terão condições de permanecer na atividade, pois estão descapitalizando.

 

Consequentemente o lucro é menor que zero, revelando que a atividade para os produtores de Ipatinga não é atrativa economicamente, uma vez que, com a renda obtida, não conseguem um saldo monetário suficiente para pagar o custo de oportunidade de todo o capital que foi investido na atividade, ou seja, caso aplicassem todo este capital em outra atividade econômica, por exemplo, na caderneta de poupança, o rendimento seria superior, ou ainda, se arrendassem a terra para terceiros, teriam rentabilidade também superior a atual.

 

Ao final do segundo ciclo, a situação é ainda pior. Com a redução de 30% da produtividade, que passa a ser de 21 metros cúbicos por hectare, a renda por hectare reduz para R$ 8.190,00. Com esses resultados, o produtor não consegue arcar ao menos com os custos operacionais efetivos, que totalizam R$ 9.518,72 por hectare. As despesas com ICMS, Licença de Corte, Registro e Colheita se mantêm de acordo com a produtividade.

 

Dessa forma, a Margem Bruta é negativa em R$ 1.328,72 por hectare. Esse indicador mostra que, para a Eucaliptocultura em Ipatinga, atualmente não é viável conduzir o segundo ciclo, pois, ao conduzi-lo, estão perdendo R$ 1.328,72 por hectare.

 

Considerações finais

Podemos destacar alguns pontos sobre a eucaliptocultura em Ipatinga, em que os produtores devem ter muita atenção:

 

  • Deve-se ter atenção na produtividade. Ela é um dos fatores que mais influenciam um bom retorno econômico. Além disso, reduz o risco e a dependência dos preços. Na busca por uma maior produtividade, os produtores devem se atentar aos custos. Buscando sempre aliar o ótimo produtivo ao ótimo econômico.

 

  • O custo com a colheita compromete 94% de toda a receita gerada, sendo este um dos grandes gargalos da região, assim como o preço. O preço médio de venda está muito baixo na região. Isso não torna a atividade atrativa para o produtor reinvestir e crescer. Sabemos que o mercado é soberano e é o grande controlador de preços, mas, na situação atual, o preço é um fator bastante prejudicial para a continuidade dos produtores na atividade.

 

  • Com a produtividade alcançada no segundo ciclo e o preço praticado, atualmente não é viável para os produtores da região conduzirem o segundo ciclo da cultura.

 

Ainda em dúvida sobre a eucaliptocultura em Ipatinga? Entre em contato com um de nossos especialistas e entenda mais sobre esse cenário.

 

Fotos: Produtores e participantes do painel em Ipatinga/MG:

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