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Desafios econômicos enfrentados na produção de leite: ano novo, vida nova

Diante dos desafios econômicos enfrentados na produção de leite, como estabelecer a meta de produção necessária para a sustentabilidade da fazenda?

 

Começa 2019 e, como em todos os anos, planos, metas e promessas são renovados na esperança de sempre evoluir, configurando todo janeiro como o momento em que se escuta: este ano será diferente. Quando se trata da atividade leiteira, sabemos que novos desafios vão sempre surgindo, custos de produção se elevando e, muitas vezes, o crescimento do volume do leite se apresenta como uma solução viável ao produtor, com vista à manutenção da sustentabilidade econômica da propriedade rural.

 

Pensando no lucro da fazenda, assim como de qualquer empresa, ressalta-se sempre que os resultados econômicos se baseiam em três pilares: custos de produção, escala e preço recebido pelo leite vendido, os quais, em interação, são responsáveis pelos resultados econômicos alcançados. Analisando o comportamento de preços e custos, nos últimos anos, nas fazendas participantes do projeto Educampo Leite do Sebrae Minas, deparam-se com uma triste notícia:  considerando os resultados obtidos em uma mesma amostra de fazendas, conforme os indicadores médios, observados nos períodos de dezembro de 2014 a novembro de 2015 e de dezembro de 2017 a novembro de 2018, enquanto os custos de produção apresentaram um crescimento de 18%, os preços do leite comercializado elevaram em apenas 7,9%, ou seja, as fazendas que não alteraram seu volume operaram com 10,1% a menos de margens de ganho na produção de leite, desconsiderando-se a venda de animais.

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Esses dados fazem com que se reporte a frases como: “meu pai criou uma família com 10 filhos, produzindo 50 litros de leite, hoje, isso seria impossível” e “um litro de leite valia, antigamente, o mesmo que um litro de gasolina e, atualmente, nem se compara”. Reclamações recorrentes de produtores de leite são, de fato, proposições reais, assim como o mercado é sempre soberano nas suas leis de oferta e demanda, que irão reger os preços. Dessa forma, é possível ao produtor influenciar seu valor recebido pelo leite apenas a partir de melhorias de qualidade e composição, negociações e aumento de volume entregue ao laticínio.

 

Nesse contexto, têm sido trabalhadas políticas públicas com o intuito de criar valores de referência para remuneração de produtores de leite baseados nos custos de produção observados na atividade leiteira. Portanto, em busca do desenvolvimento de um negócio rentável sob o domínio do produtor estão a escala de produção e o controle da sua estrutura de custos. Estes são muito mais relevantes para o sucesso econômico do produtor do que propriamente o preço do leite, conforme pode ser observado no gráfico a seguir. Estatisticamente, o custo de produção se mostrou cerca de quatro vezes mais importante na interação com a margem líquida do que  com o valor unitário recebido pelo leite, de acordo com os coeficientes de determinação (R²) obtidos, os quais reforçam a ideia de que o preço é, sim, muito importante. No entanto, não são necessariamente os produtores que recebem mais pelo leite comercializado os que ganham mais dinheiro, mas, sim, aqueles que possuem o custo equilibrado com seu nível de produção.

 

Quando se fala em volume de leite produzido, seu aumento irá proporcionar tanto ganhos diretos, como, por exemplo, aumento das receitas e melhoria no preço do leite recebido, quanto benefícios indiretos, como a diluição de custos fixos de produção, que são aqueles que não se alteram em razão da escala produzida. Além disso, o aumento do volume de leite promove também um maior poder de barganha nas negociações de compra de insumos, devido a uma maior quantidade necessária na fazenda, permitindo, assim, uma redução nos valores de produtos e serviços.

 

Ao avaliar o mesmo grupo de produtores, percebe-se que o aumento de 20% na escala de produção acumulado no período foi a saída para o déficit observado entre a variação de preço e o custo do leite, uma vez que, mesmo nessa situação, ocorreu um aumento da margem líquida da atividade, quando se comparam os anos de 2015 e de 2018:

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Portanto, fica evidenciada a necessidade de crescimento no volume diário produzido, em razão das expressivas elevações de determinados itens de custo de produção, como fertilizantes, combustíveis, energia elétrica, além de determinados gastos que só apresentam tendência de aumento com o passar dos anos, a exemplo das despesas com a mão de obra contratada. Surgem, então, as perguntas principais:

 

Qual deve ser a minha meta?

Quantos litros devo produzir a mais neste ano?

Qual é o nível de intensificação necessário e qual é a viabilidade econômica disso?

 

Nesse intuito, proponho um exercício utilizando agora o exemplo de 564 fazendas participantes do projeto Educampo/Sebrae Minas, com pelo menos 12 meses ininterruptos de dados econômicos. Dessa forma, observa-se atualmente um Custo Operacional Total anual da atividade leiteira de R$ 879.450,94, estando contemplados os valores de todos os desembolsos anuais, a remuneração da mão de obra familiar e os custos com depreciação. Se calculada a inflação média dos últimos quatro anos, baseada no IPCA, indicador oficial utilizado pelo governo, observamos um valor de 3,69% que, ao Custo Operacional Total dessas fazendas, representaria uma elevação de R$ 32.451,73 durante o ano.

 

Diante disso, para avaliar a necessidade do aumento de volume, é possível utilizar uma adaptação do indicador conhecido como “Ponto de nivelamento” ou “Ponto de equilíbrio”, o qual demonstra o nível de produção mínimo necessário para se obter lucro igual a zero nas operações de uma empresa.

 

Na situação em questão, iremos buscar o nível de produção marginal, ou seja, o quanto se deve produzir a mais para igualar os aumentos de custos de produção e, ao menos, manter estável a rentabilidade alcançada atualmente. Aplica-se, então, a equação descrita abaixo:

 

Então, considerando-se, para o exercício, que não houvesse nenhuma mudança nos preços de leite, já que não estão sob controle do produtor, e tendo em vista a margem bruta¹ média de R$ 0,31 por litro obtida nas fazendas do projeto, é possível aplicar a fórmula do ponto de equilíbrio e descobrir a necessidade de aumento na escala de produção:

 

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Logo, percebe-se que, caso o ano de 2019 apresente índices de inflação semelhantes aos de 2018 e não sejam consideradas alterações no preço para a conta realizada, torna-se necessária a elevação do volume em 286,8 litros/dia para fazendas com a estrutura de custos e capacidade de produção semelhantes à das propriedades participantes da amostra em análise. Diante disso, surge uma outra pergunta:

 

Como aumentar esse volume: elevar o número de vacas ou a média de produção por vaca em lactação?

 

Atentando para as duas hipóteses, existem três opções para alcançar os 286,8 litros propostos:

 

  • Aumentar 3,29 Litros/vaca/dia, considerando que as 370 fazendas possuem, em média, 87 vacas em lactação;
  • Elevar em aproximadamente 15 vacas em lactação, uma vez que a média de produção por vaca em lactação, no período de dezembro de 2017 a novembro de 2018, nas fazendas em questão, foi de 19,33 L/vaca/dia;
  • Evoluir proporcionalmente o número de vacas e a média de produção por cabeça, para que, em consonância com esses dois indicadores, seja possível alcançar a meta proposta.

 

Ressalta-se, e o que é impactante, que os ganhos de eficiência para essas fazendas não resultariam em maior retorno econômico, apenas manteria a rentabilidade atual, lembrando, é claro, caso não ocorresse aumento nos preços recebidos pelo leite.

 

Então, amigo leitor, tentamos mostrar com esses cálculos que, quando se fala em  aumento de volume, não se trata simplesmente de vaidade de técnicos ou conversa para beneficiar laticínios. Trata-se de uma necessidade iminente do produtor, trazendo maior competitividade à empresa rural devido ao equilíbrio nos dois lados da balança que confronta preços e custos. Ou seja, permitindo a valorização do produto comercializado e auxiliando no capital de giro no momento da aquisição de insumos, além de promover a diluição dos custos fixos e, consequentemente, de otimizar a rentabilidade da atividade leiteira.

 

 

Marcelo Carvalho de Souza é o autor do texto
e atua como Consultor na Labor Rural