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Carne bovina: o que levou à aceleração dos preços?

O preço da carne bovina tem se acelerado nos açougues e supermercados nas últimas semanas. De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea-Esalq/USP, o indicador do boi gordo apresentou forte crescimento nos últimos 2 meses, passando em média de R$11,76/kg em outubro de 2019 para R$14,55/kg em média nos primeiros dias de dezembro, um aumento de aproximadamente 23,6%. Além disso, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA apresentou forte aceleração para as carnes em seu último mês, novembro de 2019, em que grupo de Carnes aumentou seus preços em 8,09% aproximadamente, puxado pelo aumento nos preços médios da carne bovina (8,72%), seguido pela carne suína (3,35%) e por último, pela carne de frango (0,31%).

 

Apesar disso, de acordo com dados do Instituto de Economia Agrícola – IEA, confirmado pela Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, o preço da carne bovina no varejo se manteve praticamente estável nos últimos dois anos em termos reais, apresentando relativa queda no período, passando de R$26,48/kg em janeiro de 2018 para R$26,01/kg em outubro de 2019, uma redução real de 1,79%. Se comparado com setembro de 2018, em que o preço da carne bovina atingiu seu pico no período, R$27,30/kg, a queda ainda é mais acentuada, se comparado a outubro de 2019, cerca de 4,73%.

 

Este comportamento de queda real nos preços reais também foi acompanhado para as demais carnes no mesmo período. A Figura 1 mostra os preços reais do indicador de boi gordo do Cepea-Esalq/USP, e dos preços no varejo das carnes bovina, suína e filé de frango do IEA-SP para o período de janeiro de 2018 a outubro de 2019, no caso dessas últimas, e até dezembro de 2019 (média), no caso do indicador de boi gordo. Desse modo, é possível perceber a estabilidade dos preços das carnes no varejo no período e a indicação de que o preço da carne bovina no varejo deve aumentar nos próximos meses, de acordo com o indicador de preço do boi gordo.

 

Mas o que aconteceu para que os preços da carne bovina se acelerassem tanto nas últimas semanas? De acordo com as últimas informações da Pesquisa Trimestral do Abate de Animais, fornecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a quantidade de rebanho bovino abatido no Brasil até junho de 2019 é maior, se comparado ao mesmo período de 2018, em cerca de 419.486 cabeças, ou aproximadamente 2,7%. Portanto, apesar destas informações se referirem a períodos anteriores e do aumento frequente do consumo de carnes no Brasil, é possível dizer que os indicadores de oferta do mercado interno não são suficientes para justificar o aumento nos preços ocorrido nos últimos meses. Então, o que pode estar acontecendo?

 

Figura 1 – Preço do Indicador de Boi Gordo, Carne Bovina, Suína e Filé de Frango no varejo.

Fonte – CEPEA; IEA-SP. Deflacionado para novembro/2019 pelo IPCA.

 

Esta resposta pode ser encontrada quando analisadas as informações relacionadas ao mercado externo. A cotação do dólar no Brasil encontra-se em patamar mais elevado da sua história, o que torna os produtos brasileiros mais atrativos para os consumidores externos. Além disso, políticas de abertura comercial tem incentivado o comércio internacional brasileiro com os demais países do mundo, principalmente, com a China, um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Por fim, os rebanhos de porcos foram reduzidos à metade, pela febre suína africana, na China, o que fez com que o país passasse a importar mais deste tipo de carne, e também de outras, como a carne bovina.

 

Assim, quando analisadas as informações da Secretaria de Comércio Exterior – SECEX, do Ministério da Economia, é possível perceber que o valor das exportações de carne bovina brasileira aumentou aproximadamente 41,3% e a quantidade cerca de 15,8%, se comparado os meses de novembro de 2018 e novembro de 2019, atingindo US$ 814,82 milhões e 171,35 mil toneladas, respectivamente. Comparando o período de janeiro a novembro de 2018 com o mesmo período de 2019, o valor das exportações de carne bovina aumentou aproximadamente 14%, enquanto a quantidade exportada aumentou cerca de 12,7%. A Figura 2 mostra o valor das exportações em dólar (US$ milhões) para as carnes bovina, suína e de frango para o período de janeiro de 2018 a novembro de 2019. É possível perceber uma forte aceleração das exportações de carne bovina a partir de junho de 2019, que aumentaram cerca de 67,4%, se comparado com novembro de 2019.

 

Figura 2 – Valor das exportações em US$ milhões das carnes bovina, suína e de frango.

Fonte – SECEX-MDIC.

 

Como os consumidores estrangeiros pagam mais e o novo equilíbrio macroeconômico, com baixa taxa de juros e câmbio depreciado, deve permanecer, esta combinação faz com que os produtores brasileiros prefiram aumentar as exportações, principalmente para o caso da carne bovina, o que reduz a oferta e eleva os preços no mercado interno. Desse modo, como o aumento do consumo de carne por parte dos chineses é crescente, e o abate recente de suínos no país só deve ser recuperado daqui a cinco ou seis anos, as exportações de carnes brasileiras para os chineses devem continuar nos próximos meses e anos. Além disso, a demora do ciclo do boi também deve continuar pressionando os preços no Brasil, pois, enquanto o frango demora de 42 a 45 dias para se abatido e o porco leva 120 a 140 dias para ser engordado, o boi, em média, leva de dois a três anos no pasto. Portanto, a perspectiva, tanto devido a fatores do mercado interno, quanto do mercado externo, é de os preços da carne bovina permanecerem elevados nos próximos meses.

 

Guilherme Travassos

 

Pós-Doutorando no Departamento de Economia Aplicada
Universidade Federal de Viçosa