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Benchmarks da Pecuária Leiteira

A pecuária leiteira é de grande importância para o desenvolvimento econômico e social do país. No entanto, grande parte das propriedades de leite operam com resultados técnicos e econômicos insatisfatórios. No geral, isso é consequência da ineficiência na utilização dos recursos disponíveis, como mão de obra, terra, concentrado e volumosos, o que prejudica a obtenção de bons resultados.

 

Para crescer e desenvolver, é importante saber como estamos em relação aos outros. Na busca por melhores resultados, uma prática comum em qualquer setor é avaliar os resultados dos demais, que desempenham a mesma atividade e que alcançam o sucesso técnico e econômico. Esse processo de busca pelas melhores práticas que levarão a um maior desempenho é conhecido como Benchmarking.

 

Ao analisar os resultados obtidos por propriedades eficientes, conseguimos quantificar seus indicadores, os chamados benchmarks, e então podemos adotá-los como meta para alcançar maior eficiência técnica e econômica no processo produtivo.

 

Desse modo, o objetivo da nossa conversa é fornecer benchmarks que sirvam de orientação para os produtores de leite alcançarem o sucesso na atividade, tornando-a viável e atrativa economicamente.

 

Um indicador que distingue muito bem os “homens” dos “meninos” é a taxa de remuneração do capital investido (TRC). Ela retrata a eficiência da propriedade em obter o máximo retorno econômico de todo o patrimônio que investiu na atividade. A TRC é calculada através da divisão da margem líquida pelo capital investido, vezes cem. A margem líquida, por sua vez, é o saldo da renda bruta, descontados todos os desembolsos diretos (custo operacional efetivo), menos os custos com as depreciações de benfeitorias, máquinas e forrageiras perenes, menos os custos de oportunidade da mão de obra familiar. O capital investido é a soma de todos os valores em benfeitorias, máquinas, equipamentos, forrageiras perenes, animais e terra.

 

Para isso, foram analisados os indicadores de 496 propriedades leiteiras, pertencentes ao banco de dados da Labor Rural, que posteriormente foram segmentadas conforme rentabilidade econômica. Para o nosso estudo, foi considerada uma amostra de 25% das fazendas com as maiores rentabilidades anuais e, então, calculados os resultados de dez indicadores, sendo cinco indicadores técnicos e cinco indicadores econômicos. Os indicadores e seus benchmarks são apresentados na Tabela 1.

 

Tabela 1: Indicadores benchmark para pecuária leiteira

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Fonte: Labor Rural. Dados do período de outubro/17 a setembro/18. Valores econômicos corrigidos pelo IGP-DI de setembro/18

 

Os indicadores Vacas em lactação/Total de vacas (%) e Vacas em lactação/Total do rebanho (%) refletem a eficiência reprodutiva. Em um rebanho estabilizado, é necessário manter, em média, 82% das vacas em lactação e ter um rebanho composto por 42% de vacas em lactação. Esses valores garantirão uma receita suficiente para operacionalizar a atividade.

 

Em média, o fator Terra corresponde a 60% de todo o capital investido na pecuária de leite, o que resulta em uma necessidade de máxima eficiência em seu uso. Os indicadores Vacas em lactação/Área para pecuária (vl/ha) e Produção/Área para pecuária (l/ha/ano) indicam essa eficiência. Propriedades rentáveis devem trabalhar com, no mínimo, uma vaca em lactação por hectare e produzir, no mínimo, nove mil litros de leite por hectare/ano.

 

Com os crescentes custos com mão de obra, cada vez mais tem-se buscado a otimização desse recurso. O indicador Produção/Mão de obra mede a eficiência da mão de obra. Em propriedades com ordenha mecânica, este indicador não deve ser menor do que 550 litros por funcionário/dia.

 

Os demais indicadores são termômetros do equilíbrio técnico e econômico da propriedade, pois retratam a sua eficiência na utilização dos recursos. Os indicadores de gasto com volumoso, mão de obra e concentrado em relação à renda bruta da atividade mostram a flexibilidade necessária frente as oscilações de mercado. O gasto com volumoso de 10% em relação à renda estabelece que, caso haja redução da receita, o gasto com o volumoso terá que ser adequado à nova realidade, a fim de manter o percentual de 10% da receita comprometida com esse insumo. A mesma interpretação é válida para os gastos com concentrado e mão de obra, que não devem ultrapassar 30% e 10%, respectivamente.

 

O indicador Estoque de capital por litro define a eficiência da propriedade em transformar seus recursos aplicados na propriedade em produto (leite). Propriedades que buscam a eficiência econômica não devem investir mais do que R$ 1.100 a cada litro de leite produzido. Um produtor que fabrica mil litros de leite por dia (por exemplo) não deve alocar mais do que R$ 1.100.000 reais em sua propriedade, considerando todos os recursos físicos (terras, benfeitorias, máquinas, equipamentos, animais e forrageiras perenes).

 

As propriedades que fazem o dever de casa garantem anualmente, no mínimo, 10% de rentabilidade, valor superior a diversos fundos de investimentos. Esse resultado comprova que pecuária leiteira pode, sim, ser um negócio viável e atrativo economicamente.

 

Vale ressaltar que os benchmarks aqui apresentados não são estáticos. Eles são uma referência, visto que os valores gerados foram obtidos de outros produtores pertencentes a um mesmo cenário, mas podem variar para mais ou para menos, conforme comportamento do mercado, nível tecnológico adotado, etc.

 

Os benchmarks apresentados devem ser levados em consideração durante o planejamento e a definição de ações para a propriedade, pois auxiliam no aumento da eficiência produtiva e econômica. Seja qual for o tamanho da propriedade, o benchmark é válido e está disponível para iniciar os trabalhos em busca da eficiência!

 

 

 

Vanessa Martins é autora do texto
e atua como Coordenadora Técnica na Labor Rural