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ASSISTÊNCIA TÉCNICA E GERENCIAL: ONTEM, HOJE E AMANHÃ

Há uma aparente contradição quando discutimos a assistência técnica e gerencial aos produtores de leite no Brasil. De um lado vemos um modelo moderno, contínuo e intensivo. Do outro, um modelo atrasado, fragmentado, com ausência de políticas públicas e privadas integradoras e gestoras de seus processos, criando uma lacuna na prestação de serviços.

 

Vários indicadores de resultados de pesquisas como os do IBGE e do Sistema FAEMG|SENAR nos levam a sugerir que, com muita certeza, mais de 50% dos produtores de leite no Brasil que tratam a atividade como uma das suas principais fontes de renda, ou seja, um universo de 600.000 produtores, não recebem nenhum tipo de assistência técnica e gerencial. Não receberam uma visita, sequer, de um técnico em sua propriedade no último ano. Triste constatação!

 

Certo é que, deste universo de produtores, existe uma quantia de 30% que não estão interessados em evoluir ou investir no seu próprio negócio; pensam em deixar a atividade, portanto este não é o público responsivo às provocações inerentes à assistência técnica e gerencial. Há de ser ajudar quem quer ser ajudado, ou seja, um programa de assistência técnica e gerencial deve separar o joio do trigo e optar a trabalhar com o trigo, assim obterá respostas positivas.

 

Um modelo mais moderno de programas de assistência técnica e gerencial requer comprometimento de ambas as partes: consultor técnico e produtor. Nos modelos antigos não há cumplicidade entre produtor e consultor, muitas vezes um finge que recebe assistência técnica e o outro finge que presta assistência. Todos fingem e não se chega a lugar nenhum, muitas vezes retrocede.

 

Com a necessidade e mudanças de toda ordem na cadeia do agronegócio leite, desde as geográficas, microeconômicas, macroeconômicas, sanitárias e culturais, abriu-se mais espaço para o produtor de leite profissional e para a assistência técnica e gerencial de qualidade, ambas comprometidas com bons resultados, com números, mais ligados aos fatos e menos às fotos.

Hoje existem vários modelos de assistência técnica e gerencial de sucesso no Brasil. Cada um apresenta as suas particularidades, mas essencialmente preservam algumas características que os levam a alcançar êxito nos seus objetivos finalísticos. Sobre essas características é que vamos discutir um pouco mais a partir de agora.

 

FOCO

O foco dos modelos tradicionais de assistência técnica e gerencial tem como alvo principal as técnicas de produção. Oriundas de academias excessivamente técnicas, temos, via de regra, uma visão míope do processo produtivo de forma mais cartesiana e menos holística. Não se avalia o negócio como todo, onde os protagonistas deste processo devem ser as pessoas envolvidas, principalmente os produtores, trabalhadores e seus familiares, e não a tecnologia de produção em si, somente.

 

Um modelo de assistência técnica e gerencial mais moderno, atual e progressista, foca nas pessoas, e não somente no tecnicismo dos processos. Os resultados técnicos, a produtividade das lavouras e dos animais devem ser encaradas como o meio para se alcançar os resultados de uma boa prestação de serviços de assistência técnica e gerencial, e não o fim, ou seja, o objetivo final do trabalho.

 

O cliente principal dos modelos dos programas de assistência técnica e gerencial não deve ser a vaca, a plantação de milho, o pasto de braquiária ou as bezerras, o verdadeiro cliente é o produtor rural e as pessoas envolvidas em todo o processo. Pessoas cuidando de pessoas, principalmente do bolso do produtor. Essa história do agrônomo, zootecnista, veterinário, técnico em agropecuária auxiliar o produtor a produzir, produzir e produzir, quanto mais, melhor, e com o restante do processo não se envolver, não se preocupar com a qualidade, comercialização, se de fato o produtor rural está ou não alcançando sucesso com o seu empreendimento, é totalmente arcaica, portanto ultrapassada.

 

Quando a grande maioria de nós, técnicos, entendermos que o nosso principal cliente não é a vaca e nem a plantação de milho, e sim a pessoa do produtor rural, e mais, principalmente o seu bolso, a verdadeira revolução transformadora causada pela assistência técnica e gerencial irá acontecer.

 

O objetivo do consultor técnico tem que ser fazer com que o nosso cliente, o produtor rural, ganhe mais dinheiro com a atividade leiteira, que reinvista na própria atividade e em seus colaboradores, e seja feliz junto aos seus familiares, exercendo a função de produtor de leite com sucesso. Quando atingir esse objetivo, poderá se considerar um consultor técnico de sucesso.

 

TECNOLOGIA

Toda tecnologia deve ser empregada na busca pela maior lucratividade da atividade, e não somente para a maior produção e produtividade.

 

Sendo assim, antes de adotar uma inovação tecnológica, o consultor técnico deve fazer uma avaliação prévia de viabilidade de adoção, fazendo uma análise de custo-benefício da tecnologia a ser proposta. Deve-se ter cuidado com o modismo, o efeito manada, o que é bom para um produtor, talvez para o seu vizinho de cerca não seja.

 

O sucesso ou insucesso de um modelo de produção de leite não se resume ao sistema, tecnologias, raças etc. adotadas, e sim, à forma que esses recursos são gerenciados, mais uma vez “as pessoas” se posicionam em evidência.

 

OBJETIVO

Historicamente, todo modelo de assistência técnica sempre priorizou a maximização da produção. Produzir sempre mais, muitas vezes desconectando a oferta da demanda, é o que leva ao insucesso da atividade leiteira.

 

Os novos modelos de assistência técnica e gerencial devem buscar a maximização do lucro com a maior eficiência no uso dos recursos produtivos.

 

Mas o que é eficiência? Eficiência é produzir mais e melhor com menos. Nada mais sustentável ambientalmente do que ser eficiente. Com eficiência aumenta-se a produção de leite utilizando menos água, terra e animais, ou seja, poupando recursos ambientais e produtivos, ganhando mais dinheiro. Afinal, não tem como se preocupar com o verde estando no vermelho!

 

Portanto, essa história de se produzir no modelo de gestão para custos mínimos está totalmente equivocada. A gestão deve almejar o lucro máximo, que nem sempre passa pelo custo mínimo ou pela receita máxima. Lucro com equilíbrio no sistema de produção, esse deve ser o princípio norteador de qualquer modelo de assistência técnica e gerencial. Nem sempre o ótimo produtivo se equivale ao ótimo econômico!

 

CONHECIMENTO

O conhecimento que outrora se exigia de um bom consultor técnico era somente em tecnologia de produção. Hoje, só isto não basta. O consultor técnico atual deve, além do conhecimento das técnicas de produção, ser capacitado para o uso de novas tecnologias; ser profundo conhecedor das técnicas de gestão, tanto financeira, econômica, ambiental e, principalmente, dos recursos humanos. O consultor de campo atual deve ser muito mais plural e completo do que o de antigamente para ter sucesso profissional.

 

SUSTENTABILIDADE

Dominar conceitos de sustentabilidade, no seu sentido mais amplo, é fator preponderante para um consultor técnico de campo de vanguarda. O tema sustentabilidade deve ser o carro chefe de todo programa de assistência técnica e gerencial de qualidade.

 

Anteriormente ligava-se o tema sustentabilidade a técnicos com visão alternativa dos processos produtivos. Atualmente não há mais espaço para esse preconceito. A sustentabilidade atual e do futuro deve-se preocupar muito mais com os fatores de resiliência do que os de mitigação dos recursos produtivos, principalmente os ambientais. Conviver no presente e no futuro com certas limitações, adaptando-se às condições atuais e deste meio extrair o melhor possível, ser o mais eficiente, esse é o desafio de qualquer proposta e modelo de assistência técnica e gerencial, que deve ter como meta a sustentabilidade ambiental, econômica, social, ética e profissional.

 

A força que move o produtor rural, deve ser a mesma que move o seu consultor de campo: a busca pelo sucesso, atingindo seus objetivos pessoais, profissionais e financeiros. Daí surge a cumplicidade, o comprometimento, a amizade, que são características inerentes em qualquer relação de sucesso, com a assistência técnica e gerencial não será diferente.

 

BENEFÍCIO X CUSTO

Apesar de todos os benefícios apresentados pela assistência técnica e gerencial aos produtores de leite, afinal, investir em assistência técnica e gerencial é um bom negócio?

 

Para responder esta fácil pergunta, vamos utilizar os indicadores técnicos e econômicos de um grupo de 102 produtores de leite, analisados no período de Jul/17 a Jun/18 comparados ao período de Jul/18 a Jun/19. Todos os dados econômicos foram deflacionados pelo IGP-DI do mês de 08/2019. Esses 102 produtores fazem parte de um programa de assistência técnica e gerencial de uma grande empresa compradora de leite no Brasil, que tem a Labor Rural como gestora da Central de Inteligência das Informações Técnicas e Econômicas (CITE) da referida empresa.

 

Comparando o primeiro período, Jul/17 a Jun/18, quando esse grupo de produtores produziram, em média, 936 L/dia, com o segundo período, Jul/18 a Jun/19, quando produziram 1022 L/dia, o aumento foi de 9,11%. No mesmo período, segundo o IBGE, a produção de leite brasileira aumentou 2,9%. Se descontarmos o crescimento “natural” da produção de leite no Brasil do valor do crescimento dos produtores participantes do programa de assistência técnica e gerencial, chegamos ao valor de 6,2%, esse foi o crescimento real que podemos atribuir como resultado da assistência técnica e gerencial.

 

Como o investimento em assistência técnica e gerencial desse programa em questão, uma parte quem arca é o produtor e a outra é a indústria de laticínios que compra o leite, será que mesmo com esse crescimento real de 6,2% da produção valeu o investimento?

 

Eu atesto que valeu! Enquanto o investimento em assistência foi de R$9.085,68/ano, a margem bruta anual alcançada com o crescimento real da produção de leite foi de R$10.533,06/ano. Diante desses números podemos afirmar que para cada R$1,00 investido na assistência técnica e gerencial, em média, esses 102 produtores alcançaram um retorno de R$0,16, ou seja, pagou-se o R$1,00 investido e sobrou R$0,16. Fantástico não? Ainda pairam dúvidas?

 

Além desse ganho direto para o produtor, o aumento do volume de leite produzido e comercializado, principalmente, devido aos programas de assistência técnica e gerencial eficientes, geram ganhos para toda a sociedade, pública ou privada. Em um estudo de Matriz Insumo-Produto realizado pela empresa Labor Rural em 06/2018, concluiu-se que para cada 01 litro de leite a mais produzido em Minas Gerais, são gerados R$3,00 em atividade econômica, R$0,09 de impostos e R$0,68 em renda. Números impressionantes, não acham?

 

CONCLUSÃO

Enfim, investir em um programa de assistência técnica e gerencial eficaz é estratégico para o Brasil, no âmbito público e privado, como política de estado para o desenvolvimento da cadeia de lácteos nacional. É como um farol para iluminar o futuro do setor no mercado interno e externo.

 

Como pensou Einstein, loucura é querer resultados diferentes agindo do mesmo jeito e fazendo as mesmas coisas. Portanto, vamos continuar firmes nas mudanças, consolidando os competentes programas de assistência técnica e gerencial já existentes no Brasil, assim, alcançando um futuro promissor para o agronegócio do leite brasileiro.

 

 

(20/09/2019 – Christiano Nascif)